Sexta-feira, 25 de Setembro de 2009

O Regresso a Casa


Fecham-se por aqui as páginas destas narrativas. Escrevo já em casa, onde cheguei há cerca de 24 horas. No aconchego dos mimos, do reconhecer das rotinas, do sentimento bom de estar rodeada dos rostos a quem quero tanto bem. Recordar o sentir da estranheza, ao passar na primeira classe do avião, e ver os assentos transformados em quase-cabines individuais; já no meu banco, ter um écran à minha frente com cinquenta filmes à minha disposição, 200 cds, televisão, rota de viagem, temperatura exterior, e muito mais que não tive paciência para descobrir. Olhar em redor e ver centenas de pessoas de auscultadores nos ouvidos, olhando o écran, poucas palavras trocadas com a pessoa do lado. Dar por mim a reflectir sobre a noção de espaço individual, admitir que por vezes a levemos ao exagero. Ou talvez seja o choque de chegar de Índia onde o conceito de privacidade não existe: onde somos alvo de todos os olhares; onde não é possível passar uma hora num parque sem 5 pessoas virem conversar connosco; onde desesperamos pelo difícil que é estar num espaço público a ler um livro sem ser incomodado; afinal, se alguém está sozinho, está de certeza triste... O Arun, o filho dos meus senhorios em Jaipur, diria, ao recordar as suas viagens de metro quando visitou a irmã que vive em Londres: "Tão aborrecido!! Toda a gente a ler o jornal, ou a mexer no telemóvel ou no PDA... Ninguém com quem falar!"

Passei as últimas semanas em Leh, Ladakh: uma das mais pacíficas regiões indianas, encaixada entre a Caxemira e o Tibete. É um pequeno paraíso a mais de 3500 metros de altitude, descoberto entre montanhas rugosas, castanhas, desertas. Em Ladakh temos a sensação de que estamos isolados do mundo. E por vezes ficamos. É difícil chegar: um mínimo de 19h (eu demorei 21h30) a percorrer uma estrada sinuosa onde o alcatrão é raro, e os buracos e pedras tantos que o nosso corpo vive saltos permanentes. A 15 de Setembro, as estradas são cortadas por causa da neve, e voltam a reabrir apenas em Junho. Durante os restantes 8 meses, Ladakh apenas pode ser alcançada por avião - quando o tempo o consente. As temperaturas atingem os 40 graus negativos. Vasculhando os mercados, experimentei todos os produtos possíveis feitos de alperce - secos, em compota, sumo, creme para o corpo e esfoliante. Fiz yoga com mais 50 pessoas no Shanti Stupa, o vale de Leh aos nossos pés. Estive entre milhares de ladakhis e tibetanos nas conferências públicas do Dalai Lama. Fui voluntária num festival de música do mundo. Subi a 5606 metros de altitude, e regressei a Leh de bicicleta. Estive num lago azul, cercado de montanhas castanhas, com a sensação de que estava num dos lugares mais bonitos do Mundo.

Depois da paz de Ladakh, regressar foi como redescobrir a Índia de novo. Constatar com surpresa a quantidade impressionante de pessoas por metro quadrado. Voltar a ouvir a sinfonia infernal das buzinas. Maravilhar-me com a beleza das mulheres, das cores flutuantes dos saris. Não sei é fácil gostar da Índia. Para mim, confesso, não foi. Maravilhada com a diferença, sim. Curiosa com a diversidade, também. Encantada... demorou. Custava-me a enormidade de lixo nas ruas, cansava-me a desorganização em que funcionava o formigueiro de gente, desapontava-me a falta de espiritualidade que sonhava encontrar lá. Despedir-me da Índia como eu a imaginava e encontrar uma Índia muito mais especial do que essa levou algum tempo. Mas aconteceu.

Agora, é tempo de voltar. Deixando para trás uma Jaipur de temperaturas finalmente toleráveis, onde as mangas desapareceram das bancas dos vendedores de rua, substituídas por mais romãs, maçãs, e uns citrinos de casca verde e tamanho gigante. Feliz por voltar: são grandes e muitas as saudades. Feliz por ter ido: o coração cheio. Não porque todos os momentos foram bons e fáceis. Mas porque vivi coisas que foram muito importantes para mim. Porque conheci gente muito bonita. E em nenhum momento desejei estar em qualquer outro lugar.

Deixo mais algumas fotos (http://www.flickr.com/photos/40540484@N07/) Feliz por poder ter partilhado esta Índia (que é somente a minha Índia) convosco. Feliz por vos ter tido a partilhá-lha comigo. Grata a esta vida que me continua a dar muito mais do que a minha imaginação consegue pedir.

Um beijo agora perto =)
Ana Rita Seixas