Para satisfazer curiosidades, e porque quero e me faz bem partilhar, aqui vai um cheirinho das primeiras impressões do país das especiarias…
O e-mail demorou a chegar porque o acesso à internet não tem sido fácil, em terras indianas. Raro e lento. Mas, pelo menos, finalmente tenho o meu cartão de telemóvel indiano! Estou numa aldeia que se chama Khedi-Milak, a 55 Km de Jaipur, a capital do Rajastão (o que equivale a 1h30 de viagem). Os 260 Km que separam Jaipur de Delhi demoram 6 horas a percorrer, de autocarro, numa estrada plana e quase sem curvas. A aterragem tem sido um constante de sensações: das cores dos saris que as mulheres vestem ao cheiro puro e intenso de algumas flores, o sabor forte e spicy da comida, cujos ingredientes tenho, muitas vezes tenho dificuldade em definir.
O chá é bebida obrigatória várias vezes ao dia: uma mistura bem fervida de leite (de búfalo), chá, açúcar e gengibre. O sol é forte e muito quente a partir das 11h, mas dentro das salas as ventoinhas mantêm a temperatura muito agradável. As manhãs e as noites são frescas e arejadas. Vivo num campus, onde moram outros colaboradores da ONG, e que é também o nosso local de trabalho. Tenho consultado a documentação das actividades da ONG, já fiz duas visitas ao terreno.. . As crianças pobres do meio rural são a principal preocupação da ONG: na educação, higiene, saúde e direitos. Como os jardins-de-infância do governo ficam na cidade, eles construíram jardins-de-infância privados nas aldeias. Dão formação a mulheres, educadores, adolescentes: promovem o aleitamento materno, lutam contra o casamento precoce das meninas, assumem a educação sexual. A pobreza é extrema. As famílias vivem à base da agricultura e da pastorícia. Mas não estamos longe do deserto de Thar, e perto fica um famoso lago, rico em sal:
os terrenos são por isso alcalinos, pobres e secos. Nos últimos anos, a escassez de chuvas tem agravado a situação. A ONG tem ajudado a construir sistemas que permitam a recolha de água durante a época das monções, e o seu consumo possa ser dividido durante o ano. Foram criados grupos de auto-ajuda de mulheres, nas aldeias. Reúnem-se mensalmente e entregam as suas
poupanças. Só assim conseguem reunir o suficiente para poder abrir uma conta no banco, e terem acesso a algum crédito. De acordo com as necessidades de cada uma, vão usando à vez o dinheiro recolhido: para comprar um búfalo, adquirir um carro puxado por um camelo, pagar a educação dos filhos. Como o dinheiro que os bancos emprestam depende do montante da conta, o próximo objectivo da ONG é juntar as poupanças de todos os grupos numa só conta, que
funcionará como um fundo. Enquanto os governos distribuem dinheiro às empresas a fundo perdido, aqui fazem-se bancos de sementes: cada agricultor se compromete a entregar, após a colheita, o mesmo número de sementes que recebeu para a fazer…
A discriminação de género é gritante. Conhecer o sexo do bebé antes do nascimento é proibido por lei, mas as famílias estão dispostas a pagar elevados montantes para o saber. Cerca de 90% dos abortos são de bebés do sexo feminino. A maioria das mulheres são sub-alimentadas, anémicas, obrigadas a trabalhar duramente no campo, impedidas de ter contacto com homens que não pertençam ao seu círculo familiar. É nestes meios rurais que as situações são mais graves e complexas, e a discriminação mais amputa as liberdades. Mas, de acordo com aqueles que são os meus parâmetros, ela existe também nas famílias de castas superiores, educadas e com rendimentos. As mulheres tiram cursos superiores, falam com os homens de igual para igual, podem trabalhar... Mas, depois de casadas, a decisão sobre manter uma carreira profissional cabe ao marido e à família deste. E a naturalidade com que isso é aceite não deixa de me chocar.
Mas o ambiente é incrivelmente acolhedor. Sou a única estagiária, e a primeira estrangeira a trabalhar mesmo na ONG. Tento adaptar-me o mais possível aos ritmos e modos de vida deles, mas não consigo não despertar a curiosidade com os meus hábitos ocidentais. Respeitam-me e são extremamente amáveis e preocupados com o meu conforto. Nem todos falam inglês, e os sotaques dificultam a compreensão de algumas palavras, mas é fantástico o modo como o ser humano consegue comunicar... Somos tão mais iguais do que diferentes. À minha volta, no terraço que ocupa todo o telhado, uma planície a perder de vista, com imensas árvores. Nos tons secos da paisagem, as cores vivas e esvoaçantes dos saris são um espectáculo magnífico. Amarelos, laranjas, azuis, vermelhos… Aqui e além, *Kuchha house*s: pequenas casas de barro, que fazem adivinhar mínimas condições de higiene e segurança. Búfalos, vacas, gado. Os edifícios do campus são o que eles denominam *Pakka house*: casas em cimento. Aqui, pouco existe que possa ser tido como objecto de decoração. Pouco ou nada para além de cartazes com figuras dos deuses hindus. Os homens circulam de calças e camisa, um aspecto formal em desacordo com os chinelos de dedo que usam e deixam à entrada das salas.
Andar descalço é a regra, sem excepção. Talvez precisamente pela nudez decorativa e um total sacrifício da beleza à utilidade, as mulheres impressionem tanto. Corpos esqueléticos cobertos por tecidos esvoaçantes de cores lindíssimas, mais ou menos trabalhados, pulseiras de cor nos pulsos (que, com a pinta vermelha na testa, são marcas de casamento), de prata nos
tornozelos, piercings, anéis nos dedos dos pés...
A estranheza do primeiro dia vai-se desvanecendo. O trabalho entusiasma. As saudades estão cá todas… Mas a lembrança aconchega. E o maravilhoso mundo das telecomunicações vai certamente ajudar. Ficarei mais descansada se vos souber bem, por isso… cuidem de vocês =)
Beijinho muito, muito grande deste lado do mundo.
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