Aqui estou de novo. 44ºC de máxima. Nas noites, conseguimos 28ºC. Não há ar condicionado e as ventoinhas não são suficientes para arejar os quartos com exposição directa ao sol. Invariavelmente, depois de jantar, eles levam as camas para o jardim ou para o telhado, para
dormir: uma armação leve de alumínio com tiras entrelaçadas de tecido, leve e fácil de transportar. Às vezes, junto-me a eles. Dormimos com o céu como lençol.
Não sei se pela luz ou pelo calor, acordo, invariavelmente, às 6h da manhã, desde o primeiro dia em que cheguei. Aos poucos, vou-me convidando e sendo convidada para me juntar às rotinas: acompanho alguém num passeio matinal, ou vou com o Govind buscar leite de búfalo à cooperativa, de bicicleta. Às 7h, é o acordar geral e reunião obrigatória para o chá. Há jornais, mas apenas em hindi. Hoje o trabalho começou às 8h00, com a minha segunda visita a um Balwari (jardim-de-infância). Amit, o coordenador, explicou-me que este Balwari tinha sido construído para apoiar um conjunto de famílias de uma casta nómada com a qual a ONG trabalha e à qual tenta oferecer alguma estabilidade. Para lá do portão, um recinto a céu aberto com alguns baloiços e escorregas de aspecto ferrugento - que, apesar de grande, apenas pode ser usado nos meses de menor calor. No exterior, um tanque de água construído pela ONG para apoiar o Balwari e a comunidade. No interior, duas salas apenas: numa, funciona a cozinha, onde diariamente é preparada uma refeição para cada criança; na outra, a sala de aulas, um espaço que me parece incrivelmente pequeno para as supostas 30 crianças inscritas. Hoje, cerca de 17 estavam presentes.
Misturam-se todas as idades, os mais crescidos fazendo as actividades propostas que os mais pequenos, incapazes de os acompanhar, olham em silêncio. É incrível o silêncio e a quietude destas crianças. São todos incrivelmente bem comportados e obedientes. É assustador. No fim-de-semana pude comprar um jornal em inglês, e fiquei a conhecer a história de uma menina de 11 anos, Shanno. A professora obrigou-a a ficar 2h ao sol, com 7 tijolos em cima das costas, como castigo. Ela obedeceu. Poucas horas depois, deu entrada no hospital, onde morreu. O jornal era um levantamento de vozes críticas a este sistema onde a obediência é o maior valor.
Há tanta coisa que não percebo e tantas perguntas que não consigo ver respondidas. Tenho tentado aprender hindi, mas ainda estou bem no início do bê-à-bá. A língua é um obstáculo, mais ainda quando os tradutores são poucos e nem sempre estão disponíveis. Só 3 pessoas são capazes de ter uma verdadeira conversa em inglês. Com o inglês "tutti-futti"dos outros (expressão deles), a comunicação é possível com tempo e paciência, e a verdade é que tem sido cada vez mais fácil, à medida que os laços se criam. Mas fez-me muito bem, no fim-de-semana, conhecer os outros estagiários que estão em Jaipur e poder, finalmente, partilhar sensações e histórias… Nem sempre tem sido fácil este desligamento do mundo. Mas sei que também estou a ter o privilégio de conhecer a Índia pelos olhos de indianos, e não o trocava por nada. Com alguma persistência, sei que posso conseguir juntar ambos os mundos e sentir-me a ter o melhor deles... Ontem, por exemplo, acompanhei o Prashant (que está a fazer uma espécie de período de oração) e mais dois colegas ao templo. Aqui há deuses para todos os gostos e templos para outros tantos: desde pequenos altares no meio do nada até templos enormes e famosos onde só se vai com convite. O templo a que fomos tinha o tamanho aproximado de uma capela: um conjunto de cores e formas que lembra um castelo de conto de fadas no meio desta planície seca e miserável. Ainda fora, à entrada, havia um monte de cocos no chão. O Prashant partiu um e recolheu o fruto. Ao entrar, tocámos um sino, a anunciar ao deus a nossa chegada. Dentro, paredes revestidas por milhares de azulejos pequeninos, que misturam cores e espelhos, dando um brilho incrível ao lugar. Entrega-se o coco e o incenso. No centro da sala, a estátua do deus repousa dentro de uma pequena casinha, à volta da qual circulámos. As nossas mãos tocam as paredes e logo a seguir o nosso corpo, como se dessa forma deus entrasse em nós. Velas acesas, um homem iniciou uma oração com sinos e incenso. No fim, cada um recebeu um punhado de Prasard, a comida que os fiéis entregam aos deuses e lhes é depois distribuída: pedaços de coco misturados com bolinhas brancas de açúcar. Comemos o que nos apeteceu, sentados na pedra das escadas. O que sobrou veio connosco para o campus. Guarda-se deus num saco de plástico transparente e come-se quando dele se precisa.
Deixo saudades doces para todos. Continuem a cuidar bem de vocês, sim?!?
Beijinho grande, muito grande.
r.
Segunda-feira, 20 de Julho de 2009
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