segunda-feira, 20 de julho de 2009

Namaste...

Namaste!...=) A monção chegou finalmente, mais de um mês depois do esperado. O céu está mais vezes cinzento, os insectos crescem de tamanho, as picadas de mosquitos são mais frequentes, o calor mais fácil de suportar. Temos o cheiro da terra molhada e o pôr-do-sol no telhado é mais magnífico do que nunca. Jaipur enche-se de europeus e o número de estagiários cresce todos os dias: chegámos aos 80 e espera-se que ultrapassemos os 100. Mas mais do que dar boas vindas, eu vou fazendo despedidas: um a um, partem muitos dos que me são mais queridos aqui. Estadias mais ou menos longas, todos temos timings diferentes. Misterioso acaso da vida que nos juntou aqui.
Nos entretantos do meu silêncio de e-mails, viajei a dois lugares muito especiais. Um, Dharamsala; dois, Nepal. Dharamsala, no norte indiano, acolhe o Dalai Lama e o governo tibetano no exílio. Um paraíso de bandeiras tibetanas a acenar a paz nas montanhas. E uma energia muito especial. Sem cruzar fronteiras, a sensação é a de que entramos num outro país. Indianos são poucos, tão viajantes como os demais rostos do mundo que se cruzam por ali. As histórias são mais ou menos parecidas: chega-se de máquina fotográfica em punho, esquece-se no quarto pouco depois. Dharamsala é para sentir. Vêm-se por dois dias, fica-se por dois meses. Cada café é uma potencial casa de velhos desconhecidos; traz-se um livro e passa-se a tarde, narrativas de uma vida e uma experiência de yoga dois dias atrás. Cruzamos monges budistas vestidos de vermelho escuro e amarelo, e tibetanos rodando contas de oração com os dedos. Há uma paz no olhar destas pessoas à qual não conseguimos ficar indiferentes; mais ainda quando pensamos na sua história de tortura e exílio...
Outros dias lindos, passei-os no Nepal. Uma viagem cheia de contratempos e contudo... perfeita. Não pudemos subir a Punhill porque um autocarro se incendiara dias atrás e a estrada continuava obstruída. A chuva intensa das monções encharcou-nos as roupas e as malas, encheu-nos as pernas de mordidelas de sanguessugas. E todavia os sentidos não tiveram como não se render à imensidão do verde das montanhas e à beleza dos campos de arroz semeados de trabalhadores: pernas enterradas na água até aos joelhos, costas curvadas e protegidas da chuva por uma estrutura de palha, rostos serenos que se levantam invariavelmente para nos cumprimentar quando passamos.
As crianças erguem e juntam as mãos em “namaste” à beira da estrada. As nossas vozes apagam-se e, aos poucos, ganha o momento de cada passo e o silêncio por trás de cada gota de chuva. Somos só nós e essa força que liga o mundo. Há uma paz que não se explica, existe. Comemos a mais deliciosa sopa de noodles cozinhada por uma nepalesa numa cozinha à beira da estrada, enriquecida com os cogumelos que o nosso guia apanhou no caminho. Durante a tarde, paramos a cada 10 minutos para descobrirmos sanguessugas nos tornozelos e na barriga das pernas. Retiram-se: às vezes a tempo, às vezes não. Bebemos um chá de leite numa tasca que tem uma coruja como animal de estimação.
O nevoeiro é denso quando ao fim da tarde chegamos à pousada. O cansaço adormecido pelo aconchego de um banho quente seguido de um chá de folhas verdes de canela. A noite é de chuva intensa que a manhã não abranda. Não temos outra opção que não ficar por aqui. Pequeno-almoço quente para agasalhar da humidade, e preparar para longas horas partilhadas entre pessoas que não se conhecem tão bem quanto isso. O pai nepalês traz-nos livros que outros viajantes foram deixando. Um deles é uma história para crianças. A Julie conta, em voz alta, a história de Doris, a gigante que vivia nas nuvens e distraía a solidão atormentando com traquinices os humanos, até ao dia em que do outro lado do céu ouviu a voz de outro gigante. E num dia atravessou o mundo para descobrir Boris, o gigante – com quem partilhou os dias todos que houve depois desse. Uma roupa mais aconchegada, um baralho de cartas, as almofadas junto à parede de janelas sobre o vale. O filho mais novo dos nossos anfitriões, que tem 3 anos, nos serve chá e se senta em frente a um livro para aprender inglês, refere-se aos estrangeiros que chegam como “hallos”. Ao fim da tarde, as nuvens começam finalmente a dissipar-se. Subimos ao telhado para assistirmos ao lento descobrir do nevoeiro. O sabor que tem esperar 30 minutos, 40 minutos, talvez uma hora? pelo espectáculo imenso das montanhas que tocam o céu: tudo o que sempre esteve ali, e só agora conseguimos ver.
Tentei o flickr para o partilhar convosco:
http://www.flickr.com/photos/40540484@N07/
Espero que funcione...=)
Abraço grande, a guardar todas as saudades.
Cuidem bem de vocês!...

1 comentário:

  1. Sei que gosta de fotografia,
    por isso
    tomei a ousadia de lhe fazer um
    CONVITE:
    Estive 5 dias isolada do mundo, num encontro espiritual comigo mesma, num monte alentejano e, por isso tenho que muito rapidamente divulgar a minha próxima exposição de fotografia sobre a ÍNDIA.

    Desta vez será no “Norte” a pedido de várias pessoas, em Fevereiro passado, quando foi a minha 1ª exposição individual aqui próximo de Lisboa, na margem sul.
    Como gosto de desafios, houve “alguém” que me desafiou e disse que colaborava, nem pensei 2 vezes e decidi tratar do assunto em Abril passado.

    Chegou Setembro e será a minha rentrée cultural.
    Fica o convite para quem vive perto e noutros casos, em que a distância impossibilita a presença de tantos bloggers, fica a participação do evento.

    Venho reforçar que teria todo o gosto em que estivesses presente na minha rentrée.
    Será muito próximo do Porto, em S. Mamede de Infesta.

    Já fiz a divulgação no meu blog.

    Abraços, TULIPA

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